

O dia 21 de março remete ao Massacre de Sharpeville, ocorrido em 1960, na África do Sul, quando uma manifestação pacífica contra leis segregacionistas foi violentamente reprimida por forças do Estado, resultando na morte de 69 pessoas e deixando centenas de feridos. Em memória à tragédia, a Organização das Nações Unidas instituiu a data como o Dia Internacional pela Eliminação da Discriminação Racial, reafirmando o compromisso global com o enfrentamento ao racismo.
Nesse contexto, a discriminação racial pode ser compreendida como “qualquer forma de tratamento desigual, exclusão ou restrição baseada em raça, cor ou origem étnica que prejudique o acesso e o exercício, em igualdade de condições, aos direitos e oportunidades na vida social” (Garcia; Peruzzo, 2020).
Ainda é importante distinguir preconceito e racismo. O preconceito refere-se a ideias e julgamentos baseados em estereótipos; e o racismo configura-se como um sistema histórico e social de dominação que produz privilégios e desvantagens conforme a raça/cor dos indivíduos (UFPA, 2023).
Considerando que o racismo é um fenômeno complexo, que se manifesta tanto de forma consciente quanto inconsciente, movimentos negros há décadas o denunciam como elemento estruturante das relações sociais, responsável por produzir desigualdades persistentes. Ele não se reduz a atitudes individuais, mas constitui um sistema de opressão que nega direitos e reconhecer seu caráter estrutural pode, por vezes, gerar inquietação diante de sua magnitude.
Nessa perspectiva, o racismo estrutural pode ser compreendido como um conjunto de práticas, normas e instituições que, historicamente organizadas, produzem e reproduzem desigualdades raciais de forma sistemática na sociedade, influenciando o acesso a direitos, oportunidades e recursos (UFPA, 2023).
O acesso à educação de qualidade, por exemplo, é um dos direitos que à população negra diuturnamente são negados, resultando em desigualdades educacionais que não dizem respeito à capacidade, mas às oportunidades historicamente negadas (Ribeiro, 2019). Nesse sentido, políticas de ações afirmativas têm se mostrado fundamentais para ampliar o acesso e promover transformações no campo educacional.
Mesmo diante de avanços dessas políticas, a presença da população negra em espaços historicamente elitizados ainda é atravessada por desconforto, vigilância e sensação de não pertencimento (Pittman, 2017; Rocha; Casotti, 2017). Uma experiência recorrente relatada por pessoas negras é a hipervisibilidade, marcada pelo olhar constante de julgamento racial. Nessa condição, a cor da pele torna-se, muitas vezes, o principal, ou o único atributo percebido, reduzindo a subjetividade do indivíduo a estereótipos.
Tais dinâmicas também atravessam o cotidiano das instituições de ensino e sabe-se que a representatividade é fundamental para o pertencimento (Munanga, 2005; Carine, 2023). Assim, como afirma Munanga (1999), “[…] a identidade negra se constrói historicamente na luta contra os mecanismos sociais que procuram negar a humanidade plena das populações negras” (p. 46). Essa construção é atravessada por marcas históricas profundas, que ainda hoje repercutem em experiências de desconsideração, exclusão e baixa representatividade nos espaços acadêmicos (Fredrich, 2022; Oliveira et. al., 2024).
Diante desse cenário, torna-se fundamental que a universidade se reconheça não apenas como espaço de formação, mas também de transformação social. Educar para as relações étnico-raciais implica assumir um compromisso ativo com a construção de uma sociedade mais justa e equânime. Todas as pessoas que compõem o ambiente universitário são agentes fundamentais desse processo, e, como afirma Ribeiro (2019), não devemos nos intimidar: a prática antirracista é urgente e se constrói também nas ações cotidianas.
Nesse sentido, cabe a cada um de nós refletir: o que estamos fazendo, de forma concreta, para enfrentar o racismo? As pessoas brancas estão implicadas em combater o pacto da branquitude? Estamos dispostos a bancar o desconforto? A omissão também contribui para a sua manutenção (Carine, 2023; Bento, 2022; Ribeiro, 2019).
Na EEUSP, destacam-se importantes espaços de acolhimento, escuta e ação. O Coletivo Negro Sônia Barros constitui-se como um espaço fundamental de fortalecimento do pertencimento e de mobilização estudantil, promovendo ações voltadas à valorização das identidades negras e ao enfrentamento do racismo. A Liga Acadêmica de Saúde Negra e Indígena (LASNIn) tem como missão promover a formação acadêmica, científica e cidadã de estudantes da área da saúde, por meio do ensino, da pesquisa e da extensão voltados à saúde da população negra e indígena, contribuindo para o enfrentamento das iniquidades em saúde e para o fortalecimento dos princípios da equidade, integralidade e universalidade do Sistema Único de Saúde. Nessa perspectiva, a Liga também atua no enfrentamento do racismo estrutural, ao fomentar uma formação comprometida com a equidade. De forma complementar, a Comissão de Inclusão e Pertencimento (CIPEE) atua na promoção da equidade, da dignidade e dos direitos humanos, desenvolvendo iniciativas voltadas à construção de um ambiente acadêmico mais inclusivo e livre de discriminações.
Cabe ressaltar que o racismo não é a única forma de opressão presente na sociedade. Diferentes grupos sociais vivenciam desigualdades e discriminações que, em muitos aspectos, se inter-relacionam. No entanto, o enfrentamento ao racismo exige reconhecimento de sua especificidade histórica e de seus impactos estruturais.
A eliminação da discriminação racial é um compromisso coletivo. Mais do que uma data, o 21 de março nos convoca à ação cotidiana, ao posicionamento ético e à construção de uma comunidade universitária verdadeiramente antirracista.
Autoria:
Prof. Dr. Hercules de Oliveira Carmo (Comissão de Inclusão e Pertencimento EEUSP); Profª. Dr.ª Aurea T Minagawa Toriyama (Comissão de Inclusão e Pertencimento EEUSP); Danyel Santos Silvestre (Coletivo Negro Sônia Barros); Naum Luis Fernandes Santos (Coletivo Negro Sônia Barros); Prof.ª Dr.ª Jaqueline Lemos de Oliveira (Liga Acadêmica de Saúde Negra e Indígena – LASNIn); Leticia Pires Ribeiro (Liga Acadêmica de Saúde Negra e Indígena – LASNIn).
Referências:
Bento MAS. Pacto da Branquitude. São Paulo. Cia.das Letras. 2022.
Carine B. Como ser um educador antirracista. São Paulo: Planeta do Brasil, 2023.
Fredrich VCR et al. Percepção de racismo vivenciado por estudantes negros em cursos de Medicina no Brasil: uma revisão integrativa da literatura. Interface – Comunicação, Saúde, Educação [online]. 26: e210677, 2022. Disponível em: https://doi.org/10.1590/interface.210677.
Garcia I, Peruzzo PP. A aplicação do conceito de discriminação racial nas recomendações gerais e relatórios anuais do comitê sobre a eliminação da discriminação racial da ONU. Bol. Camp. Geog. [Internet]. 30º de junho de 2020 [citado 19º de março de 2026];10(1):241-59. Disponível em: https://publicacoes.agb.org.br/boletim-campineiro/article/view/2765
Munanga K. Rediscutindo a mestiçagem no Brasil: identidade nacional versus identidade negra. Petrópolis: Vozes, 1999.
Munanga K. Superando o racismo na escola. 2005. Disponível em: https://portal.mec.gov.br/secad/arquivos/pdf/racismo_escola.pdf
Oliveira DL, Souza TO, Medeiros TM. Caracterização dos estudantes de graduação em enfermagem durante a COVID-19: análise das dimensões étnico-raciais e socioeconômicas. Esc Anna Nery [Internet]. 28:e20240029, 2024. Disponível em: https://doi.org/10.1590/2177-9465-EAN-2024-0029pt
Pittman CB. “Shopping while Black”: Black consumers’ management of racial stigma and racial profiling in retail settings. Journal of Consumer Culture, 17(3), 491–510, 2017. Avaliable from: https://doi.org/10.1177/1469540517717777
Ribeiro D. Pequeno manual antirracista. Companhia das letras, 2019.
Rocha R; Casotti L. Reflexões sobre o consumidor negro brasileiro. Revista Pensamento Cotemporâneo em Administração, 57(1), 47–57, 2017. Disponivel em: Avaliable from: DOI: http://dx.doi.org/10.12712/rpca.v11i2.940
UFPA. Universidade Federal do Pará. Projeto letramento racial: como forma de combate ao racismo / Universidade Federal do Pará, Instituto de Ciências Jurídicas, Projeto Letramento Racial. – Belém: ICJ/UFPA, 2023. Disponível em: https://www2.mppa.mp.br/data/files/9A/07/9A/60/1DBFB810F7967688180808FF/CARTILHA_ANTIRRACISTA.pdf
Presidente
Prof. Dr. Antônio Fernandes Costa Lima – 29/05/2023 a 26/05/2025
Vice-Presidente
Prof. Dr. Divane de Vargas – 29/05/2023 a 26/05/2025
Representantes do Departamento ENC
Prof.ª Dr.ª Angela Maria Geraldo Pierin (Titular) 11/09/2023 a 10/09/2026
Prof.ª Dr.ª Maria de Fatima Fernandes Vattimo (Suplente) 11/09/2023 a 10/09/2026
Representantes do Departamento ENO
Prof.ª Dr.ª Patricia Campos Pavan Baptista (Titular) 11/09/2023 a 10/09/2026
Prof.ª Dr.ª Valéria Marli Leonello (Suplente) 11/09/2023 a 10/09/2026
Representantes do Departamento ENP
Prof.ª Dr.ª Maiara Rodrigues dos Santos (Titular) – 07/02/2022 a 06/02/2025
Prof.ª Dr.ª Caroline Figueira Pereira (Suplente) – 07/02/2022 a 06/02/2025
Representantes do Departamento ENS
Prof.ª Dr.ª Suely Itsuko Ciosak (Titular) 11/09/2023 a 10/09/2026
Prof. Dr. Alfredo Almeida Pina de Oliveira (Suplente) 11/09/2023 a 10/09/2026
Representantes da Congregação (5º Membro)
Prof.ª Dr.ª Renata Eloah de Lucena Ferretti-Rebustini (Titular) – 15/10/2021 a 14/10/2024
Prof.ª Dr.ª Maria Amélia de Campos Oliveira (Suplente) – 15/10/2021 a 14/10/2024
Representante Discente
Thamires de Oliveira Rocha (Titular) – 06/02/2023 a 05/02/2024
Jéssica Garcia (Suplente) – 06/02/2023 a 05/02/2024
Observação:
– mandato dos membros: 3 anos – permitida a recondução
– mandato dos Representantes Discentes da Pós-Graduação: 1 ano